A exportação de produtos da ovinocultura, principalmente carne, movimenta cerca de US$ 11 bilhões todos os anos e está em crescimento. Os mercados mais exigentes para carne ovina devem continuar comprando grandes volumes da Austrália e da Nova Zelândia, que são os únicos fornecedores que dispõem de excedentes significativos e são considerados muito confiáveis no mercado internacional. No entanto, estas compras serão cada vez mais em cumprimento a contratos de fornecimento de longo prazo e cada vez menos com aquisições eventuais.
Vários países importadores, que ficarão sem fornecedor, poderiam ser atendidos pela carne brasileira, seja pela nossa localização geográfica, seja pela existência de acordos comerciais bilaterais.
No entanto, para almejarmos a exportação de carne ovina temos dois grandes desafios no sistema agroindustrial da carne ovina brasileiro:
1) A articulação do sistema como um todo, desenvolvendo ferramentas para melhorar as relações dos agentes de cada segmento entre si e com os outros elos da cadeia produtiva.
2) A gestão individual de cada uma das empresas que fazem parte do sistema - das propriedades rurais ao varejo, passando pelos frigoríficos, fornecedores de insumos e demais agentes.
Produção animal
É necessário que se aumente a escala de produção nos criatórios brasileiros, de forma que individualmente cada um detenha rebanhos maiores e possa ter melhores resultados econômicos com a atividade. Assim, o custo de produção deverá diminuir e a ovinocultura se tornará uma atividade mais lucrativa para os produtores que já investem nela.
Deve-se incentivar os criadores de bovinos a diversificarem e intensificarem a utilização de suas pastagens com a introdução de ovelhas. A estrutura básica da bovinocultura, com poucos ajustes, permitiria que os pecuaristas, de corte ou leiteiros, pudessem estabelecer rapidamente rebanhos relativamente grandes, o que naturalmente aumentaria a oferta de ovinos para abate. Muitos destes pecuaristas já detêm rebanhos ovinos para subsistência, isso quer dizer que a atividade não é totalmente nova para eles.
Ao mesmo tempo, os agricultores que produzem grãos em larga escala deveriam ser incentivados a iniciarem criações de ovinos como forma de diversificação de atividades, como ocorreu na Austrália há cerca de uma década. Estes produtores têm condições de acelerar a engorda dos cordeiros, através da utilização de subprodutos, comuns na agricultura, e também alimentar ovelhas com o pastejo da palhada após a colheita.
A melhoria geral da tecnologia de produção se baseia no tripé alimentação, manejo e genética. Deve-se dar ênfase à utilização racional das pastagens, que são alimentos de baixo custo, com o uso estratégico de concentrados em regiões específicas. Também é importante difundir técnicas de manejo reprodutivo e sanitário que permitam incrementar a produção, através do aumento do número de nascimentos e da diminuição da mortalidade. Finalmente, generalizar o uso de reprodutores que tenham características importantes para a produção de carne, como fertilidade, precocidade e ganho de peso, tirando a ênfase genética na aparência externa que atualmente é praticada no Brasil.
A promoção de treinamentos da mão-de-obra gerencial e operacional nas propriedades não pode ser esquecida. Somente com a elevação do nível de capacitação do pessoal envolvido com a produção, dos proprietários aos ovelheiros, é que se conseguirá atingir as metas descritas anteriormente.
Processamento
O incentivo para o efetivo funcionamento das diversas unidades industriais de abate espalhadas pelo Brasil, que estão ociosas ou fechadas, deveria ser uma das ações prioritárias. Assim, aumentará a formalização do abate e a qualidade da carne oferecida ao mercado brasileiro e, como consequência, ao mercado externo.
As indústrias deveriam ser estimuladas a se tornarem os indutores de desenvolvimento da cadeia, assumindo a coordenação dos produtores rurais em determinadas regiões. A implantação do sistema de classificação de carcaças ajudaria na adoção de mecanismos mais eficientes de precificação na compra de animais, premiando os melhores criadores.
É importante buscar a inovação em produtos, para oferecer ao consumidor maior facilidade de manuseio, como porções menores e pratos prontos, para incentivar o consumo e competir nos mercados que mais remuneram a carne.
Ambiente organizacional e institucional
Os problemas ligados ao ambiente institucional que mais afetam a competitividade da cadeia agroindustrial da carne ovina são o abate clandestino; a baixa coordenação da cadeia produtiva; a debilidade do sistema de informação e marketing; e o protecionismo de alguns países importadores.
A importância de ofertar alimentos seguros, aos consumidores brasileiros e dos eventuais mercados importadores, é ponto fundamental a ser trabalhado. Assim, garantir o cumprimento das diversas legislações brasileiras que tratam de sanidade animal e inocuidade dos alimentos, da produção primária ao varejo, é tarefa que deve ser implementada com urgência. Naturalmente, deve-se ter em conta a dificuldade de cumprimento da legislação pelos pequenos produtores e a necessidade de ações voltadas para a educação sanitária em todos os extratos da sociedade.
A falta de coordenação é base da maioria dos problemas da cadeia produtiva. É importante admitir que a competitividade de longo prazo das empresas atuantes na produção de carne ovina, da criação ao abate e distribuição, é relacionada com a competitividade do sistema agroindustrial da carne ovina como um todo. Assim, deve-se promover o entendimento dos empresários de toda a cadeia a respeito das virtudes de comportamentos mais cooperativos.
Não é suficiente conseguir bons resultados em apenas um elo da cadeia produtiva. Uma carcaça de cordeiro precoce, abatido com as melhores técnicas, pode ser comprometida se o transporte frigorificado não for bem efetuado. Da mesma maneira, não é suficiente que apenas alguns produtores se comprometam com a sanidade do rebanho, pois a existência de focos de doenças pode comprometer a imagem sanitária de toda uma região ou do país inteiro.
Também é muito importante implantar um sistema centralizado para a coleta, análise e difusão de um banco de dados confiável, capaz de orientar os agentes da cadeia no planejamento e coordenação de suas ações, melhorando a eficiência de todo o processo produtivo. O Secretariado Uruguayo de la Lana, é um exemplo próximo deste tipo de iniciativa, que dá mais transparência a toda a cadeia de produção.
Mercados externos mais próximos
Entre os países importadores mais importantes, vários apresentam barreiras tarifárias e não-tarifárias significativas. A União Européia, maior importador, exerce uma política de cotas de carne ovina que inviabiliza o negócio com países que não contam com esta benesse comercial. Os EUA representam outro mercado importante, e estão relativamente próximos do Brasil. No entanto, não aceitam o principio da regionalização proposta pela OIE e, assim, não reconhecem nosso país como livre de febre aftosa.
O mercado importador do Golfo Pérsico, em conjunto, é quase tão grande quanto o da União Européia. Com exceção da questão do abate Halal, as exigências sanitárias costumam ser mais brandas do que aquelas impostas pelos países mais ricos. É uma região que tende a aumentar as importações de carne ovina nos próximos anos, pois a renda da população vem apresentando crescimento expressivo, que costuma ser acompanhado do incremento do consumo de proteína animal.
O México é outro grande importador de carne ovina que é próximo ao Brasil. Ao mesmo tempo, já oferece tarifa de importação de carne ovina mais favorável ao nosso país. No entanto, é necessária a negociação de protocolos de equivalência sanitária entre ambos, para que o Brasil possa exportar carne vermelha para os mexicanos.
A África do Sul também é relativamente próxima ao Brasil e pode se tornar um importador da carne ovina brasileira, apesar das barreiras à carne vermelha brasileira. No entanto, precisam ser aprofundados os entendimentos tarifários e sanitários previstos no acordo de cooperação Mercosul-Sacu.
Em resumo, deve-se inserir a carne ovina brasileira nas negociações de comércio internacional que venham a ser desenvolvidas pelo governo brasileiro, buscando intensificar os acordos comerciais com outros países. Metas concretas e factíveis são, por exemplo, a busca de cotas de importação junto à União Européia e o estabelecimento de acordos de reciprocidade sanitária com o México e com a África do Sul.
Referências bibliográficas
ABARE. Agriculture in Australia: past, present, future. Canberra: ABARE, 2006. 60 p.
BATALHA, M. O.; SILVA, A. L. Gerenciamento de sistemas agroindustriais: definições e correntes metodológicas. In: BATALHA, M. O. (Coord.). Gestão agroindustrial. São Paulo: Atlas, 2007. V. 1.
DELGADO, C. et al. Livestock to 2020: the next food revolution. Washington: IFPRI, 1999. 83 p.
INSTITUT DE L'ÉLEVAGE, Perspectives offre/demande de la viande ovine dans l'Union Européenne des 27 à l'horizon 2015. Filière Ovine et Caprine. Paris, 2è trimestre 2008, n. 24.
MDIC/ARCO. Estudo de mercado externo de produtos derivados da ovinocultura. Passo Fundo: Méritos, 2010. 168 p
NANTES, J. F.; SCARPELLI, M. Gestão da Produção Rural no Agronegócio. In: BATALHA, Mário Otávio (Coord.). Gestão agroindustrial. São Paulo: Atlas, 2001, v. 1, p. 556-583.
NRC. Changes in sheep industry in the USA: making the transition from tradition. Washington: National Research Council, 2008. 367 p.
SORIO, A. Ovinocultura e abate clandestino: um problema fiscal ou uma solução de mercado. Revista de Política Agrícola. Brasília, jan./fev./mar. 2010. Ano XIX, n. 1, p. 71-83.
SORIO, A; CARFANTAN, J.Y; MARQUES, W.A. Carne ovina: sistema internacional de comercialização. Passo Fundo: Meritos, 2010. 142 p.
SUL. Plan de acción estratégico nacional del rubro ovino 2009-2015. Montevideo: SUL, 2008. 49 p.